terça-feira, junho 08, 2010

Mercado de Trabalho

Prepare-se para ser negociado no Mercado de Capitais


Com a valorização cada vez maior do conhecimento, os ativos pessoais podem se converter em investimentos negociáveis


O que você faria se soubesse que, futuramente, seus talentos poderão ser negociados num mercado de capital humano?

Não é novidade para ninguém que o mercado de trabalho vem passando por uma revolução sem precedentes, em todo o mundo. A cada dia cresce a exigência de um maior nível de qualificação dos profissionais. No Brasil, em particular, a situação apresenta contornos bastante preocupantes, considerando-se o tamanho da população economicamente ativa e o nível educacional dos brasileiros.

Pressionadas pela necessidade de maior competitividade e ganhos de produtividade, as empresas têm sido forçadas a promover um contínuo processo de achatamento nas suas estruturas organizacionais, ocasionando, como consequência, sucessivos cortes no número de empregados,.

Segundo pesquisa realizada pela professora Christina Larroudé, da Fundação Getúlio Vargas, “o número de níveis hierárquicos das empresas no país caiu de 25 para seis nos últimos dez anos.” Na prática, isso quer dizer que ficou ainda mais acirrada a disputa pela ascensão vertical nas organizações.

Se por um lado o nível de exigências vem crescendo, por outro esse ambiente competitivo está tornando cada vez mais valorizados os talentos individuais. Fazer a diferença passou a ser um fator de crescimento profissional em qualquer segmento.

As empresas, atentas a esse movimento e sempre ávidas pela captação e retenção desses talentos, têm procurado formatar e sofisticar suas ferramentas de Recursos Humanos. Nessa direção, uma pesquisa realizada pela Hay do Brasil, constatou que 41% das empresas pesquisadas já possuem planos de remuneração baseados no desempenho dos seus profissionais. Além disso, a mesma pesquisa indica que 40% das organizações pontocom trabalham com incentivos de longo prazo, como as opções de compra de ações por parte de seus colaboradores.

Em contrapartida, na era do conhecimento e do capital humano, cada um poderá encontrar o seu próprio padrão de produtividade. O engenheiro paulistano, José Cláudio Terra, autor do livro “Gestão do Conhecimento, o Grande Desafio Empresarial”, coloca a gestão do conhecimento como o fator mais decisivo para o sucesso das empresas e dos profissionais modernos. Segundo ele, pessoas que tenham competências específicas deverão ser cada vez mais valorizadas.

O advento da comunidade virtual, conectada em rede, por sua vez, proporciona aos profissionais talentosos maior visibilidade, fazendo com que ganhem uma valorização acima da média e sejam disputados pelos “headhunters” (os caçadores de talentos), numa escala cada vez maior.

Todos esses fatores servem apenas para respaldar a forte ênfase das empresas no tocante ao seu principal insumo: o capital humano. Em meio a toda essa valorização, uma nova teoria começa a ganhar força: a transformação dos ativos humanos em investimento.

Em seu livro, a Riqueza do Futuro, Stan Davis e Christopher Meyer desenham esse ousado cenário, onde qualquer profissional poderá negociar seus talentos como ativos em um mercado de capital humano. Tudo funcionaria como uma bolsa de valores, no caso, uma bolsa de capital humano.

A idéia não é uma miragem. Com a crescente desregulamentação das relações trabalhistas, cada dia mais empresas e profissionais estão assumindo um tratamento individualizado nos seus laços profissionais. Desse modo, o mercado de capitais vê surgir o embrião de um novo produto. A partir da criação de mecanismos que permitam converter os ativos pessoais em veículos de investimento, dando-lhes liquidez, os especialistas financeiros vislumbram a geração de um mercado altamente rentável.

Um dos exemplos que respaldam este conceito é o do cantor David Bowie. Com a ajuda do grupo de investimentos Pullman, o cantor emitiu bônus (debêntures) garantidos por suas vendas (shows, cd’s, etc.) nos próximos 15 anos. Submetidos à chancela de uma agência de classificação de risco, os papéis de Bowie foram avaliados no mesmo nível das debêntures emitidas por nada menos que a General Motors.

Da mesma forma, um executivo poderá criar um “papel” baseado nas suas habilidades e na capacidade de atingir objetivos, por exemplo. Ou um educador, considerando sua habilidade de preparar os alunos para concursos vestibulares.

Além disso, com a expansão e acessibilidade crescente dos diversos meios de comunicação, profissionais talentosos poderão agregar à sua carteira de ativos produtos como portais de conhecimento individuais, disponibilizando-os na internet ou em outros meios eletrônicos.

Diante desse cenário, como estariam aparelhadas as nossas Instituições Educacionais para lidar com o conhecimento nessa nova dimensão, como fator concreto de geração de riqueza individual?

A pergunta se faz necessária, uma vez que todo esse movimento trás no seu bojo o conhecimento e as habilidades individuais como principal ingrediente. A formação das competências de cada indivíduo, desde o seu primeiro contato com o saber, serão para ele o maior bem na sua carteira de capital humano. Sua capacidade de alavancar recursos no futuro poderá estar diretamente relacionada com seu portfólio de conhecimentos, habilidades e talentos, de uma forma jamais experimentada.

Nessa perspectiva, o ambiente sinaliza um novo viés para o papel da escola, apresentando-a como impulsora ligada diretamente à formação de ativos financeiros. Uma análise mais detida sobre as últimas décadas já nos mostra que o poder de criação da riqueza tem, em escala crescente, migrado das mãos das corporações para as de indivíduos. Não bastasse a grande responsabilidade das instituições escolares, no seu papel precípuo de educar, a considerar essa tendência sua atuação passa a ter um caráter de matéria prima para as inúmeras Eu S/A que advirão.

Nas palavras de Peter Senge, poderíamos resumir o quão importante é o papel da escola nesse contexto. “um desempenho superior, depende de um aprendizado superior”.



Este artigo foi escrito por mim, nove anos atrás. Parece atual??

Nenhum comentário: